Blog pessoal, de ''mim para mim''. Faíscas de luzes e contornos da minha sombra... Mas quem quiser também, esteja a vontade.

domingo, 17 de janeiro de 2010

João em Patmus

(Texto do livro JESUS, O FILHO DO HOMEM, de Gibran Khalil)

Falarei dEle mais uma vez.
Deus me deu voz e lábios, mas não palavras.
Sou indigno da plenitude da palavra, mas chamarei meu coração a meus lábios.

Jesus me amava, e eu não sabia o por quê.
E eu O amava porque Ele despertou meu coração para alturas além de minha estatura e para profundidades além de minhas sondagens.

O amor é um mistério sagrado.
Para os que amam, ele permanece eternamente sem palavras, mas para os que não amam, ele pode ser apenas uma brincadeira cruel.

Jesus chamou a mim e a meu irmão quando estávamos trabalhando no campo.
Eu era jovem e só a voz do alvorecer tinha visitado meus ouvidos.
Mas a Sua voz, e a trombeta da Sua voz foram o fim do meu trabalho e o início de minha paixão.
E nada havia para mim, então, a não ser caminhar no sol e adorar a doçura do momento.
Podeis conceber uma majestade amável demais para ser majestade? E uma beleza radiante demais para ser bela?
Podeis ouvir em vossos sonhos uma voz, tímida com seu próprio arrebatamento?


Ele me chamou, e eu O segui.
Naquela tarde voltei à casa de meu pai para pegar meu outro manto.
E disse para minha mãe: “Jesus de Nazaré me quer em Sua companhia’’.
E ela disse: “Vá pelo Seu caminho, meu filho, como teu irmão”.
E eu O acompanhei.
Sua fragrância me chamou e me dirigiu , mas só para me libertar.
O amor é um hospedeiro atencioso para seus convidados, mas não para os não convidados, sua casa é uma miragem e uma zombaria.

Agora quereis que explique os milagres de Jesus.
Todos somos o gesto milagroso do momento; nosso Senhor e Mestre era o centro desse momento.
No entanto, não era Seu desejo que tal gesto fosse conhecido.
Eu O ouvi dizer para os aleijados: “Levanta-te e vá para casa, mas não diga aos sacerdotes que eu te curei’’.
E o espírito de Jesus não estava com o coxo; estava antes com os fortes e eretos.
Sua mente buscava e capturava outras mentes e Seu espírito todo visitava outros espíritos.
E com isso, Seu espírito mudava essas mentes e esses espíritos.
Parecia milagroso, mas para nosso Senhor e Mestre era tão simples como respirar o ar de cada dia.

Deixai-me agora falar de outras coisas.
Um dia, quando Ele e eu caminhávamos sozinhos em um campo, estávamos ambos com fome e chegamos a uma macieira silvestre.
Só havia duas maçãs pendendo do galho.
Ele segurou o tronco da árvore com Seus braços e a sacudiu, até que as duas maçãs caíram.
Ele apanhou as duas e me deu uma.
A outra Ele manteve na mão.
Com a fome que eu tinha, comi a maçã, bem depressa.
Quando olhei para Ele, vi que ainda tinha a maçã na mão.
Ele me deu dizendo: “Como esta também’’.
E eu peguei a maçã, e na minha fome desavergonhada, comi-a.
E quando voltamos a caminhar, eu olhei para Sua face.
Mas como poderei dizer o que vi?
- Uma noite com velas a queimar no espaço;
- Um sonho além de nosso alcance;
- Um meio-dia com todos os pastores em paz e felizes com suas grei pastando;
- Um entardecer, e uma quietude, e uma volta ao lar;
- Então o sono e um sonho.

E todas estas coisas eu vi em Sua face.
Ele havia me dado as duas maçãs.
E eu sabia que Ele tinha fome tanto quanto eu.
Mas agora eu sei que dando-as para mim Ele tinha ficado satisfeito.
Ele comera de outros frutos, de outra árvore.
Eu vos falaria mais dEle, mas como o farei?
Quando o amor se torna grande demais, não há mais palavra.
E quando a memória está sobrecarregada, ela busca a profundidade silente.

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